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Sempre temos que começar de algum lugar

  • 10 de set. de 2021
  • 6 min de leitura

Uma maneira que encontrei de gritar.



À pouco tempo eu descobri que a minha vida tem desmoronado, mas quanto mais eu penso nisso mais fundo eu chego e, no momento, tenho a sensação que ela começou a descer essa ladeira à muitos e muitos anos atrás, ou talvez, até, só tenha descido, desde muito cedo.


Eu não quero transformar esse blog em um lugar de lamentos, ou me transformar em uma vítima dos acontecimentos. Quero que, caso algum dia eu tenha coragem de indicá-lo para alguma pessoa, ou caso alguém me encontre ao acaso entenda que o meu intuito é poder me expressar, escrever os meus pensamentos pra que, de alguma maneira, possa organizá-los melhor. Quero que saibam que eu estou me tratando, faço terapia (com uma terapeuta maravilhosa, diga-se de passagem), que tenho aprendido a cuidar melhor de mim (ainda que as vezes pareça que estou retrocedendo), que faço quase religiosamente meu exercício físico semanal (encontrei um que me dá muito prazer e recebo Kudos por isso rs) e, principalmente, espero um dia poder servir de inspiração para uma pessoa que seja. Se, com as minhas palavras, as minhas experiências, eu puder ajudar uma única pessoa, já estarei muito feliz.


Hoje sou uma mulher casada, de 33 anos, com um emprego teoricamente estável. Tenho uma família que me ama, um marido que me ama, uma casa própria (que pagamos mensalmente um financiamento alto, mas não deixa de ser própria) e uma vida confortável. Não somos ricos, e, inclusive, precisamos muito aprender a gerir melhor nosso dinheiro, e posso dizer que minha (não nossa) renda bruta mensal é quase o dobro da média salarial brasileira. Pra quem olha de fora provavelmente diria que sou afortunada, que tenho uma vida boa e estável, e sou sim, olhando somente para esses aspectos. Mas aí que entra a questão, que é muito complexa e muitas pessoas não entendem: "Mas e a cabeça?" Cara, eu te digo. Não vai nada bem.


Sim, a pandemia piorou muito as coisas, as pessoas dizem. Mas será que ela piorou mesmo, ou só intensificou?


Ontem à noite eu recebi uma mensagem de uma amiga de infância que, descobri a pouco tempo, tem passado a mais de ano por um processo de cura mental, ela me mandou uma sugestão de vídeo sobre amor próprio e isso me inspirou a estar aqui agora escrevendo. (Muito obrigada por isso, inclusive!)


Eu fiquei muito tempo tocando a vida, bem clichê, parafraseando Zeca Pagodinho, “deixando a vida me levar”. Fiquei anos ignorando o autoconhecimento e esses mesmos anos vivendo uma vida que eu entendi, aprendi ou escolhi ser a certa, que era viver a vida dos outros, ser agradável, a ser pelos outros, e fui deixando de ser por mim e me tornando cada vez mais a filha, a irmã, a funcionária, a prima, a amiga e, principalmente, nos últimos anos, a esposa. Agora eu consigo ver melhor. Agora eu consegui enxergar a pontinha do iceberg (mais um clichê, prometo melhorar minhas referências rs) que é a minha vida.


E como é difícil ver isso, como é difícil aceitar isso, dói e é triste. Ninguém me obrigou a ser essas pessoas e a me ignorar. É normal ser essas pessoas, todo mundo é um pouquinho de cada, mas o que eu não tinha aprendido até então é que, para isso, eu não precisava deixar de olhar pra mim.


O vídeo, que a foto acima faz referência, fala sobre amor próprio, sobre autoestima, o que nada mais é que se amar, que se colocar em primeiro lugar, que é ser feliz como você é e então, a partir daí, você se torna uma pessoa mais confiante. Mas isso é claro, óbvio para todo mundo, certo? Mas o que eu nunca tinha pensado é quando. Quando foi que eu perdi minha autoestima? Quando foi que eu me tornei insegura? Quando? E o vídeo diz: pode ter sido durante a gestação. Pode ter sido depois de um trauma de infância. Pode ter sido pela maneira que fui criada. Pode ter sido por vários motivos e a qualquer momento da vida.


Então ele dá o exemplo de duas cadelinhas, irmãs de gestação, uma franzina desde o nascimento e de uma forte, grande e vistosa. A franzina, desde pequena recebeu mais atenção, mais carinho, mais cuidado devido ao seu porte e ao medo dela não sobreviver. Já a outra cadelinha não precisava desses cuidados, pois ela era forte e independente. A medida que elas foram crescendo, eles perceberam que a cadelinha maior era arredia às brincadeiras e que hoje, adultas a cadelinha maior continua arredia, mais 'tímida' como foi dito no vídeo. E então eles concluíram que o fato dela não ter recebido essa atenção na sua infância canina a fez ter uma estima baixa, hoje a cadelinha franzina é a 'dona da relação', a cadela grande e vistosa só come depois da cadelinha franzina comer, por exemplo e, pensando no mundo animal, teoricamente o maior e o mais forte é o dominante.


Pra muita gente isso pode não fazer sentido, mas pra mim foi um tremendo baque. Eu me vi na cadela grande e vistosa. E, acho que percebi, que foi nessa parte da minha vida que a minha estima mudou de rumo.


Não me entendam mal, por favor, eu amo a minha mãe e a minha irmã, mais que tudo nessa vida, mas pode ser que tudo tenha começado ai.


Eu nasci de parto normal, na data escolhida pela minha mãe (pasmem), recebi o nome que ela sempre sonhou, desde adolescente, por em sua filha. Com os olhos claros, o que também era um desejo dela mesmo meus pais tendo os olhos castanhos e quase nenhum parente próximo com essas atribuições. Fui a primeira neta por parte de pai (o que me concedeu muitos mimos, inclusive. Mas isso é assunto pra outra hora). Tudo perfeito né? Até que, aos três meses de vida, fui promovida à irmã mais velha.


Sim, minha mãe engravidou no resguardo. E dezesseis dias depois de completar meu primeiro ano de vida minha irmã nasceu. Não sei como isso aconteceu, mas o exemplo das cadelinhas deu um estalo na minha cabeça e agora eu n consigo pensar em mais nada a não ser colocar pra fora e organizar esse turbilhão de sentimentos.


Eu sempre me orgulhei em ser a irmã mais velha, existem vários relatos de como, desde pequena, eu me via cuidando dela, mesmo não sendo a obrigação de uma criança, mas era fofo a maneira como eu me importava, eu continuo achando fofo e todo mundo também sempre achou. Mas ao mesmo tempo eu comecei a crescer nas sombras dela. Hoje eu vejo isso. Ela sempre foi 'mais bonitinha' (não que eu não fosse - isso nunca passou pela minha cabeça - entendam que há sentimento aqui enquanto escrevo, mas estou tentando relatar os fatos), como era pequenininha, não aparentava a idade que tinha, muito tagarela, chamava atenção por onde passava e eu era mais tímida, mais obediente, mais 'madura', se é que uma criança pode ser. E então, crescemos assim, cada uma com suas respectivas qualidades que não mudaram muito desde a infância. Pelos meus olhos, eu: obediente, madura, tímida, sempre tentando ser a filha perfeita, e ela: extrovertida, rodeada de amigos, carismática e também sempre foi uma boa filha (minha mãe soube nos ensinar muito bem os valores e o respeito) mas nem sempre tão obediente.


Ok então, agora todo mundo conhece os fatos. E, eu sempre soube deles também. Mas o que mudou?


Primeiro ponto: a história das cadelinhas. Me lembrou muito como crescemos e fomos criadas. Pelo fato dela ser mais extrovertida, as atenções iam pra ela. Pelo fato de ser menorzinha, sempre sofreu com alergias e doenças mais graves, o que fazia com que nossos pais direcionassem mais atenção à ela. Pelo fato de não ser tão obediente quanto eu, sempre ficavam mais de olho nela do que em mim, já que eu nunca desobedecia às ordens.

Segundo ponto: verdades que só escutamos na terapia. Algumas sessões atrás eu contei pra minha terapeuta essa história ai de cima. E sabe o que ela me disse? "Ser uma criança educada é uma maneira de chamar atenção dos pais, pois assim a criança espera que os pais a notem por ser uma filha tão comportada."


Então eu acho que foi ai, aos três meses de idade que eu comecei a me tornar uma pessoa tímida. E isso foi se intensificando nos últimos tempos, devido a outros fatores, até eu parar de me importar comigo. Parar de me cuidar e basicamente começar a me 'punir' gratuitamente. Com calma, uma outra hora, eu falo melhor sobre isso. Mas poder colocar pra fora o que eu acabei de escrever foi muito melhor do que eu esperava.


Hoje eu estou procurando autoconhecimento e acho que entender os meus traumas é fundamental pra que as coisas mudem. Não é fácil, tem me tirado o prumo, o rumo. Mas escrever me ajuda.


Você se sente uma pessoa tímida? Com baixa estima? Já conseguiu identificar o que ou quando isso começou a acontecer? Se alguém, por algum acaso tiver lido tudo o que eu acabei de escrever e quiser me contar. Seria ótimo poder compartilhar essa experiência.



 
 
 

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Sejam bem vindos ao meu mundo. Criei o nome desse blog 'O mundo que habito' em 2012, foi um período sombrio da minha vida, estava saindo de um relacionamento que anos depois consegui identificar como abusivo...

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